Manaus – A manhã na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) José Rodrigues, localizada na Avenida Camapuã, zona norte de Manaus, foi marcada por cenas de total descaso e abandono da saúde pública. Pacientes, incluindo idosos amparados por lei com o direito à prioridade, relataram esperas exaustivas que ultrapassaram a marca de cinco horas, evidenciando um verdadeiro colapso no atendimento da unidade.
O cenário encontrado é desolador. De um lado, a falta crônica de profissionais de saúde, com relatos de que apenas um médico estaria atuando no local, e de outro, uma infraestrutura precária, com mato alto, telhados danificados e acúmulo de fezes de pombos na fachada, expondo os pacientes a riscos sanitários antes mesmo de entrarem no consultório.
Condições Críticas na UPA José Rodrigues
Um dos casos mais revoltantes é o de um senhor idoso que chegou à UPA por volta das 7h da manhã, em jejum, para realizar exames. Sofrendo com uma forte virose e episódios de diarreia, ele passou pela triagem apenas após as 9h e, desde então, foi esquecido na sala de espera. Tremendo de fraqueza e sem se alimentar, ele questionou a recepção se poderia ir até a casa de um filho, que mora próximo, para comer algo. A resposta foi um ultimato cruel: se saísse, perderia o lugar na fila e voltaria à estaca zero. “A gente trabalhou muito por aí tudo e agora que estamos precisando, não somos atendidos como esperávamos”, desabafou o idoso, sentindo-se humilhado pela estrutura do Estado.
O desamparo se repete na história de uma idosa de 79 anos. Aguardando desde as 7h30 da manhã, a aposentada buscava apenas a aplicação de um medicamento para tratar uma infecção urinária. Com o remédio já comprado e segurando-o nas próprias mãos, ela amargou horas nos corredores sem sequer ser avaliada. A fila de prioridades, segundo os próprios pacientes, simplesmente não funciona na UPA.
“Eu acho triste e precário. Ganho só um salário mínimo. Se eu tivesse dinheiro, pagaria um plano de saúde, mas o que eu ganho gasto com remédios para gastrite e problemas nas pernas”, relatou a idosa, evidenciando a dependência vital da população mais carente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
Revolta Geral e Omissão do Estado
A indignação não se restringe aos mais velhos. Jovens, adultos e pais com crianças doentes que buscam socorro endossam o coro de revolta. Um jovem motociclista que presenciou a agonia dos pacientes classificou a situação como “falta de respeito”, apontando a omissão dos governantes diante de pessoas que correm risco de agravar seus quadros de saúde nas filas.
A crise na UPA José Rodrigues reflete um problema profundo na gestão da saúde estadual. Apesar das recentes promessas do governo estadual e das trocas de secretários de saúde anunciadas pelo governador Roberto Cidade, a realidade na ponta continua a mesma: postos sucateados, falta de insumos básicos, ausência de enfermeiros e médicos insuficientes.
Para piorar a situação, com a chegada da equipe de reportagem para registrar as denúncias, as portas da unidade chegaram a ser fechadas pela segurança, deixando pacientes espremidos do lado de fora, expostos à sujeira e ao descaso do local.
Enquanto o jogo político se desenrola nos gabinetes, quem paga a conta é a população amazonense. Trabalhadores e idosos continuam voltando para casa com suas dores, esperando que a saúde pública deixe de ser uma eterna promessa para se tornar, de fato, um direito garantido.
Até o fechamento desta matéria, a Secretaria de Estado de Saúde (SES-AM) não havia se pronunciado sobre a grave falta de médicos, a recusa no atendimento prioritário e as péssimas condições estruturais da UPA José Rodrigues. O espaço segue aberto para esclarecimentos.




